Mértola: Música da Europa Central, segredos arqueológicos e coelhos bravos

A grande música da Europa Central, uma porta aberta para o património e a biodiversidade

A igreja matriz de Mértola, é um dos mais notáveis monumentos nacionais do Alentejo. No seu chão começou por existir um templo romano, depois substituído por um sumptuoso lugar de culto cristão. Com o advento do Islão, foi aqui construída uma ampla mesquita, transformada mais tarde, pela Ordem de Santiago, em igreja. Os muçulmanos partiram há muito, mas a sua herança perdurou nas pedras e na memória colectiva. Ainda hoje os habitantes de Mértola dizem que vão à missa à mesquita.

Este edifício, recentemente requalificado, alia à beleza arquitectónica e à aura histórica óptimas condições acústicas. Isto torna-o um sítio muito adequado para receber, a 14 de Abril, às 21h30, o próximo concerto do Festival Terras sem Sombra, intitulado Aos Quatro Ventos: Palimpsestos Musicais da Europa Central (Séculos XIX-XXI) e organizado em parceria com o Município de Mértola e a Embaixada da Hungria. Em cena vai estar a melhor criação musical, da época romântica à actualidade, dos países do Grupo de Visegrád – Eslováquia, Hungria, Polónia e República Checa –, com obras de compositores tão marcantes como Chopin, Janácek, Dvorák, Kodály, Dadák, Kurtág, Dusík ou Malec.

Os intérpretes, oriundos destes países, são estrelas nos palcos do mundo, tendo estudado, todos eles, na célebre Academia Liszt, de Budapeste, parceira do Terras sem Sombra. A dois cantores que triunfam na ópera, a soprano Anna Furjes e o tenor Miloslav Sykora, juntam-se dois génios do piano, Jan Vojtek e Lukasz Piasecki, a violoncelista Kristina Vocetková, recentemente aclamada nos Estados Unidos, e a virtuosa do cimbalão – instrumento característico da Europa Central – Gabriela Jílková. Um elenco de excepção para um programa realmente único, que retrata três séculos da vida musical do velho continente.

Desvendar os segredos arqueológicos de Mértola

Debruçada sobre o Guadiana, esta vila é uma povoação muito antiga, cujos segredos, ciosamente guardados durante séculos, têm vindo a ser trazidos à luz por Cláudio Torres e pela sua equipa do Campo Arqueológico de Mértola. Nos últimos meses, obras num edifício municipal revelaram, casualmente, vestígios extraordinários da velha Myrtilis. Entre eles, contam-se várias estátuas da Roma imperial, de dimensão heróica, que, a par de outras evidências arqueológicas, levam a reescrever a história antiga do actual território português.

Na tarde de 14, com partida às 15h00, os arqueólogos Cláudio Torres, Susana Gómez e Virgílio Lopes orientarão uma visita ao centro histórico da localidade, dando a conhecer o seu potencial arqueológico e, especialmente, as novas descobertas científicas, com realce para o núcleo de estatuária dos imperadores e os vestígios do forum. Uma ocasião verdadeiramente privilegiada para conhecer o coração da localidade e o profundo trabalho aí levado a cabo, de forma sistemática, ao longo de décadas, pelo Campo Arqueológico.

A gestão cinegética e a conservação da natureza

Mértola, capital nacional da caça e coração do Parque Natural do Vale do Guadiana, é uma das zonas mais relevantes do país quanto à biodiversidade. No seu concelho decorre uma experiência muito bem sucedida de reintrodução do lince-ibérico, só possível graças a uma articulação entre a gestão cinegética e a conservação dos recursos naturais, cujo epicentro é a Herdade das Romeiras.

A manhã de domingo, 15, a partir das 9h30, vai ser dedicada pelo Terras sem Sombra, com a colaboração da ANPC - Associação Nacional de Proprietários Rurais, do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto, e do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrícola e Veterinária. O ponto de encontro é o parque de estacionamento da rotunda à entrada da vila.

O Monte das Romeiras  (S. João dos Caldeireiros), cuja nome evoca a circulação de peregrinos – o Caminho de Santiago passa aí –, constitui o foco desta actividade, centrada na gestão da fauna selvagem, com realce para o coelho bravo e a perdiz-vermelha, ambas espécies basilares do ecossistema local. Delas e, em particular do coelho, depende a sobrevivência de outras, como o lince-ibérico ou a águia-imperial, mas o coelho é muito afectado pela doença hemorrágica viral, epidemia que requer grandes cuidados, do ponto de vista da gestão criteriosa dos efectivos cinegéticos e de medidas de gestão do habitat.

A acção envolve os participantes, através de um percurso para observação de fauna e paisagem, convidando-os ainda a participarem em tarefas práticas de gestão sustentável da fauna selvagem e recolha de informação para o projecto MAIS COELHO, incluindo a recolha de amostras em coelhos capturados vivos. Estes trabalhos são guiados por António Paula Soares (engenheiro biofísico), João Carvalho (engenheiro florestal), Paulo Célio Alves e Marisa Rodrigues (biólogos) e Margarida Duarte e Mónica Cunha (veterinárias).

As iniciativas do Festival Terras sem Sombra, uma organização da Pedra Angular e do Centro UNESCO de Arquitectura e Arte, são de acesso livre.


Moinhos, Vena Piano Trio e Cabo Sardão em destaque em Odemira

A emoção musical, do Romantismo à actualidade

A próxima jornada do Festival Terras sem Sombra inicia-se, a 17 de Março, em Odemira, com um concerto do Vena Piano Trio, intitulado De Corpo e Alma. O espectáculo terá como palco, às 21h30, o Cineteatro Camacho Costa. Esta sala histórica acolhe um programa excepcional, em que se destacam obras de Eurico Carrapatoso, Zoltán Kodály, Jenö Hubay e Fryderyc Chopin. A iniciativa resulta da parceria da Pedra Angular com o Município de Odemira, a Embaixada da Hungria e a Associação Portugal-Hungria para a Cooperação.

Trata-se de um percurso estimulante pela música europeia, em sentido contrário aos ponteiros do relógio: começa na modernidade, com “O Eterno Feminino em Peer Gynt”, de Carrapatoso, um dos grandes compositores portugueses dos nossos dias (nasceu em Mirandela, em 1962), que estará presente em Odemira; percorre fabulosas páginas instrumentais de dois vultos maiores da música húngara dos séculos XIX-XX e termina no auge do Romantismo, com Chopin, polaco universal que encarna, como poucos, a essência deste período. Tudo conduz, afinal, a uma reflexão sobre a condição da mulher, na arte e na vida.

Esta proeza artística é de um ensemble que se destaca, internacionalmente, por aliar a beleza expressiva à execução inspirada. O Vena Piano Trio agrupa três grandes senhoras da música de três países: a pianista portuguesa Andrea Fernandes, maestrina na Ópera Nacional Húngara; a violinista húngara Erzsébet Hutás, chefe de naipe na Nova Orquestra Húngara de Câmara; e a polaca Kamila Slodkowska, chefe de naipe na Orquestra Sinfónica de Alba Regia. Formaram o trio em 2015, em Budapeste, para dar a conhecer repertórios que ligam as tradições musicais de diferentes pontos da Europa.

Algo muito adequado a um festival, como o Terras sem Sombra, apostado em romper fronteiras e dar a conhecer a música no estado mais puro, pela mão dos principais intérpretes de hoje. Não por acaso, esta edição da sua temporada musical, que arrancou em Janeiro e vai até Julho, visa aproximar o distante, propondo um encontro entre a tradição e a modernidade na música europeia, do século XVI à actualidade.

Em sintonia com a natureza

A tarde de 17 é dedicada, a partir das 15h00, aos cumes que protegem Odemira e, em particular, a um dos seus monumentos, o moinho de vento dos Moinhos Juntos. Em finais do século XVIII, há mais de dois séculos, estes equipamentos da era proto-industrial começaram a pontuar os montes à volta de Odemira (antes, dominavam as azenhas, menos produtivas). Hoje, o engenho dos Moinhos Juntos é o único que está ainda apto a moer, sob a orientação diligente do seu moleiro, José Guilherme. Vai ser ele o guia da acção, a par do historiador António Martins Quaresma e do perito em molinologia José Matias.

Com a ajuda destes cicerones, a visita vai permitir conhecer, de perto, os mecanismos dos velhos moinhos e o funcionamento do vento como força motriz. É também uma ocasião para reflectir sobre o uso das energias renováveis, um dos mais importantes desafios que se colocam à sociedade actual. Conta-se para isto com a presença do físico nuclear Joaquim Marcos, natural de Odemira, professor do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, e um dos cientistas residentes do CERN, o maior laboratório de física de partículas do mundo, localizado na região de Genebra.

Uma Finisterra: o Cabo Sardão

A manhã de domingo é consagrada, a partir das 10h00, a um impressionante local da costa alentejana, o Cabo Sardão. Talhado numa arriba com mais de 40 m de altura, este constitui um ponto em que a terra, com as suas negras arribas xistosas, dramaticamente flectidas e fracturadas pelos movimentos das placas tectónicas, confronta o Atlântico, desafiando as suas águas. O promontório, entre campos agrícolas e bosquetes, serve de habitat a uma grande diversidade de seres vivos.

Carlos Cupeto, professor da Universidade de Évora, e Ana Balbino Costa, da Associação para a Ciência do Alentejo Litoral, vão instruir os participantes nos segredos da geo e da biodiversidade de uma zona protegida. São famosas as cegonhas que nidificam nos alcantis desta zona do Parque Natural do Sudoeste Alentejano, mas existem aqui muitos outros tesouros naturais a preservar, incluindo espécies única no mundo. Grave continua a ser, entretanto, a proliferação de espécies invasoras.

Com a colaboração da Marinha, o farol do Cabo Sardão, datado de 1915 e em pleno funcionamento, abrirá as portas aos visitantes do Festival, permitindo vislumbrar em 360º, a partir da sua torre, um panorama vastíssimo. Ao mesmo tempo, a título excepcional, será possível conhecer a rotina dos faroleiros, que constituem a guarnição deste equipamento militarizado, e partilhar algumas das suas tarefas.

As actividades do Festival Terras sem Sombra são de acesso livre.


O mês de março no Terras sem Sombra: Prémios, Serpa e Odemira

O Terras sem Sombra orgulha-se de após a votação do público e do júri, ter ficado nomeado para os Iberian Festival Awards nas categorias de Best Small Festival/ Melhor Festival de Pequena Dimensão e Best Cultural Programme / Melhor Programa Cultural, considerando um reconhecimento ao trabalho que vem desenvolvendo ao longo destas catorze edições.

Em março, o festival percorre mais dois concelhos do Baixo Alentejo: Serpa (3 e 4 de março) e Odemira (17 e 18 de março) onde os dois concertos programados estendem laços afectivos e musicais entre a Hungria e Portugal.

Em Serpa, o Festival apresenta, em estreia mundial, as Dez Canções Populares Húngaras, de Fernando Lopes-Graça. 64 anos depois de ter sido composto, este brilhante ciclo nunca foi escutado. O concerto, uma homenagem do Alentejo ao compositor português, revela as peças de Lopes-Graça e as canções da tradição popular húngara em o mestre que se inspirou. Para tal, coloca lado a lado, artistas lusos e húngaros, com a cantora lírica Cátia Moreso e os cantores magiares Hanga Kacksó e Áron Vára (também bailarino), acompanhados por Nuno Vieira de Almeida, ao piano – um grande conhecedor da obra de Lopes-Graça, de quem foi amigo – e por Béla Szerényi, na sanfona, na flauta e no "tárogató”. Um evento muito especial, em que dois músicos portugueses de referência são parceiros de jovens intérpretes húngaros, com a garantia interpretativa da Academia Liszt, e em que a música se conjuga com a dança.

No concerto de Odemira, por seu turno, o protagonismo cabe ao Vena Piano Trio. Este ensemble, que está a despertar grande interesse nos palcos europeus, reúne três artistas, oriundas de três países, todos eles formados, ao mais alto nível, na Academia Liszt: a pianista, Andrea Fernandes, é portuguesa e colabora com a Ópera de Budapeste, ao passo que a violinista e a violoncelista, Erzsebet Hutas e Kamila Słodkowska, são, respectivamente, húngara e polaca. Associa-se ao concerto o compositor português Eurico Carrapatoso, partilhando o programa com mestres dos séculos XIX e XX: Kodály, Hubay e Chopin.

As tardes de sábado são dedicadas, a partir das 15h00, a conhecer a monumentos extraordinários, geralmente inacessíveis ao público.

Em Serpa, no dia 3 de Março, o Terras sem Sombra abre as portas do Convento de Santo António, um dos mais notáveis exemplos da arquitectura tardo-gótica no Alentejo e um marco da história regional. A visita conta com a orientação de António Martins Quaresma (historiador) e José António Falcão (historiador da arte).

 

Quanto a Odemira, o alvo é um dos moinhos de vento do sítio dos “moinhos juntos”. Este equipamento recuperado pelo Município, encontra-se capaz de moer. Visitá-lo oferece uma ocasião para conhecer um património protoindustrial digno de atenção, mas também para se reflectir sobre o uso sustentável de energias renováveis, um dos grandes desafios que se colocam à sociedade actual. Com a orientação de Ana Tendeiro Gonçalves (antropóloga), António Martins Quaresma (historiador) e José Matias (técnico de museus), na tarde de sábado do dia 17 de Março.

Ambos os programas fecham no domingo com iniciativas de salvaguarda da biodiversidade que juntam a prática à teoria – todos os participantes são voluntários que dão uma mão à Mãe Natureza. Em Serpa, vamos conhecer e defender os olivais com 2000 anos que produzem um azeite muito apreciado pelas suas características singulares, com os engenheiros agrónomos José Pedro Fernandes de Oliveira e Francisco Garcia. E, em Odemira, partimos à descoberta da geo e da biodiversidade nas falésias, campos agrícolas e bosquetes do Cabo Sardão, que representa um habitat de grande interesse para a vida selvagem. Os orientadores são Rita Balbino (bióloga), Carlos Cupeto (geólogo) e António Martins Quaresma (historiador).

Todas as actividades são de acesso livre.