30 Maio

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África em Castro Verde


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O Festival Terras sem Sombra caminha para o término da sua 12.ª edição. Dos oito concertos e actividades de biodiversidade programadas, estão por concretizar duas etapas. Desde Fevereiro, este projecto, que associa a música sacra ao património religioso e à defesa da biodiversidade, já passou por Almodôvar, Sines, Santiago do Cacém, Odemira, Ferreira do Alentejo e Serpa, levando até estas localidades do Baixo Alentejo momentos únicos e memoráveis, apresentando intérpretes e músicos de excelência à escala mundial – e integrando, assim, a região nos circuitos nacionais e internacionais das artes.
Paralelamente, tem vindo a protagonizar um papel de relevo na defesa da biodiversidade, ao desvendar tesouros ambientais com as acções que realiza em prol da natureza.


 MÚSICA RELIGIOSA DE ÁFRICA EM CASTRO VERDE

FTSS_Castro Verde

A 4 de Junho, o Festival traz à Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição, em Castro Verde, o concerto Polirritmias: Ligeti Africano. O transilvano György Ligeti é um dos compositores fundamentais da música europeia do século XX. A sua vasta obra definiu algumas das mais importantes tendências da vanguarda do nosso tempo, mas não deixou de conquistar um público alargado, com o Requiem que Stanley Kubrick utilizou no filme 2001: Odisseia no Espaço.

Reconhecendo o génio da música tradicional de África, Ligeti inspirou-se, para a concepção de algumas das suas peças, em aspectos marcantes desta ancestral herança. No concerto de Castro Verde é possível apreciar o resultado dessas influências, através de um cruzamento artístico entre o pianista Alberto Rosado e três notáveis músicos da Guiné-Conacri e Camarões.

Shyla Aboubacar, Justin Tchatchoua e Bangura Husmani executam as peças originais da tradição africana, em que são peritos, e, por sua vez, Rosado mostrará o resultado das transformações levadas a cabo pelo compositor húngaro, falecido em Viena, em 2006. Percussionistas e pianista tocarão juntos em alguns momentos, improvisando a partir de temas consuetudinários. Polo Vallejo, o etnomusicólogo e referência no campo da pedagogia e da musicologia experimental, actualmente a viver na Tanzânia, fará a apresentação, acompanhada por imagens, de modo a contextualizar o repertório em palco.
O espectáculo Polirritmias, além do interesse que suscita pelas músicas, mostra a singularidade de cada tema e dos elementos mais significativos das obras que o conformam, revelando, assim, os parentescos que existem entre ambas as linguagens – a africana e a ocidental. Ao destacar os aspectos que tanto chamaram a atenção de György Ligeti e o genial uso que ele fez dos mesmos, perscruta-se como concebeu e construiu as suas obras.

Em certos momentos, poder-se-à comprovar de que forma a improvisação, longe de parecer um exercício arbitrário, corresponde a critérios de selecção e variação de uma matéria musical que parte de princípios assaz regulados; isto permitirá que os intérpretes, por seu turno, encontrem espaços comuns onde, em atmosfera de diálogo, se torna possível experimentar e partilhar músicas diferentes, mas dispostas sobre “estruturas” similares. Todas as músicas, afinal, não são mais do que uma mesma e única música.

A transumância e as suas canadas reais, um património ibérico a redescobrir

No domingo, 5 de Junho, com partida às 10h00 da Basílica Real, poder-se-á acompanhar uma jornada de trabalho de um pastor do Campo Branco. Esta actividade do programa do Festival para a salvaguarda da biodiversidade tem por mote a transumância e visa descobrir os segredos dos antigos moirais de ovelhas das planícies imensas de Castro Verde.
Hoje são muito raros os pastores que ainda passam largas temporadas no campo; a actividade adaptou-se à evolução social, mas não deixa de integrar os ensinamentos do passado, ainda bem presentes na paisagem de Campo Branco.
Aos participantes nesta iniciativa será dada a oportunidade de acompanhar uma jornada de trabalho por um moiral (“maioral”), pastor sénior de Campo Branco. Esta atividade conta com a colaboração do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (Parque Natural do Vale do Guadiana), o apoio da Câmara Municipal de Castro Verde e a Associação de Agricultores do Campo Branco. É uma excelente ocasião para conhecer algumas das paisagens mais deslumbrantes do Sul, junto a S. Pedro de Cabeças onde, segundo a tradição, teve lugar, em 1139, a batalha de Ourique.


Programa Castro Verde

4 de Junho [21H30]
Basílica Real de Nossa Senhora da Conceição

Polirritmias: Ligeti Africano

Piano Alberto Rosado
Balafão, camani nguni, kalimba Shyla Aboubacar
Tum laah, balafão, sanza Justin Tchatchoua
Cabaça, nkul, sheker, ngogoma Bangura Husmani
Apresentação e textos Polo Vallejo

5 de Junho [10:00]
Construtores de Paisagem: Acompanhando Uma Jornada de Trabalho de Um Pastor do Campo Branco